Um Texto Íntimo Sobre os “Fantasmas” que Carregamos
Há músicas que não
ouvimos apenas com os ouvidos — ouvimo‑las com a pele, com a memória, com
aquilo que ficou guardado em silêncio dentro de nós. Ouvi “I Walk with Ghosts”,
de Scott Buckley, teve exatamente esse efeito sobre mim: abriu portas internas
que pensei estar fechadas, e deixei entrar os meus próprios fantasmas.
Não falo de
espíritos, nem das figuras que imaginávamos quando éramos crianças e temíamos o
escuro. Esses medos ficaram para trás. Os fantasmas de que falo agora são
outros: são feitos de lembranças, de restos de um tempo que não volta, de
culpas que ficaram a meio, de arrependimentos que pesam mais do que gostaríamos
de admitir. São desejos que nunca chegaram a nascer por completo, sonhos que
deixámos cair pelo caminho.
O passado não muda,
por mais que às vezes caminhe ao nosso lado como se ainda tivesse algo a dizer.
Há dias em que ele é leve, quase imperceptível. Noutros, é tão presente que
parece respirar no nosso ombro. E, mesmo assim, continuamos a avançar.
Com o tempo,
aprendemos algo simples e profundo: as lembranças que doem também são as que
ensinam. São elas que nos obrigam a parar, a olhar para onde errámos, a
reconhecer o que ficou por resolver. E é nesse gesto — frágil, mas corajoso —
que algo em nós começa a crescer. Devagar, quase imperceptível, mas cresce.
Os fantasmas que nos
seguem não vêm para nos assombrar. Vêm para nos lembrar.
Lembrar quem fomos…
e quem ainda podemos vir a ser.
Há uma estranha
ternura nisso. Caminhar com os nossos fantasmas é aceitar que somos feitos de
luz e sombra, de acertos e falhas, de força e vulnerabilidade. É reconhecer que
cada passo, mesmo os que demos em falso, faz parte da história que carregamos.
E talvez seja por
isso que esta música ecoa tão fundo: porque nos convida a atravessar os
corredores silenciosos da nossa própria memória, sem medo do que vamos
encontrar. No fim, percebemos que os fantasmas não nos puxam para trás.
Ajudam-nos a compreender o caminho.
E, quando finalmente
os escutamos, descobrimos que não estamos a caminhar com sombras — estamos a
caminhar com versões antigas de nós mesmos, que apenas pedem para ser vistas
antes de seguirem em paz.
Autora, Elyne Silva

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