A Verdade Sobre a Procrastinação Criativa
Há dias em que o corpo se senta
para escrever, mas a alma permanece à porta. A caneta está ali, o teclado está
ali, o tempo até existe, mas algo dentro de nós hesita. Não é preguiça. Não é
desinteresse. É um silêncio estranho, quase ritualístico, que nos impede de
começar.
Chamamos isso de procrastinação
criativa, mas o nome não revela a profundidade do fenómeno. A procrastinação
comum adia tarefas. A procrastinação criativa adia encontros. Encontros com a
nossa própria voz, com aquilo que queremos dizer, com aquilo que tememos
descobrir.
Durante muito tempo, acreditou-se
que procrastinar era falta de disciplina. Mas, no universo da criação,
raramente é isso. A procrastinação criativa nasce de lugares mais íntimos: medo
de falhar, medo de não corresponder às expectativas, medo de não ser tão bom
quanto imaginamos que deveríamos ser. Às vezes, nasce do medo oposto: o receio
de ser bom demais e não saber lidar com isso.
Há também a saturação. A mente
que cria é a mesma que sente, observa, absorve. E há momentos em que ela
simplesmente não consegue produzir mais nada. Não porque não queira, mas porque
está cheia. A procrastinação, nesses casos, é um pedido de repouso. Um
intervalo necessário para que as ideias decantem, para que o excesso se
transforme novamente em clareza.
Outras vezes, a procrastinação
surge como uma dança estranha em torno do próprio processo. Arrumamos a mesa.
Organizamos pastas. Limpamos a casa. Pesquisamos mais do que precisamos.
Criamos rituais que parecem preparação, mas que, na verdade, são adiamentos
disfarçados. Não porque não queremos escrever, mas porque escrever exige uma
honestidade que nem sempre estamos prontos para enfrentar.
A verdade que quase ninguém diz é
que a procrastinação criativa não é um inimigo a ser derrotado. É um sinal. Um
sintoma. Uma mensagem. Algo dentro de nós está a pedir tempo, espaço ou
coragem. E ignorar isso só aumenta a resistência.
Lidar com a procrastinação
criativa não passa por forçar produtividade. Passa por escutar. Por reduzir a
pressão. Por permitir que o texto comece imperfeito. Por aceitar que a criação
tem ritmos próprios, e que nem todos os dias são dias de produzir. Alguns são
dias de observar. Outros são dias de recolher. Outros ainda são dias de
simplesmente existir.
Há uma suavidade possível nesse
processo. Escrever uma frase, mesmo que pequena. Abrir o documento sem exigir
nada dele. Criar micro-hábitos que não aprisionam, mas acompanham. E,
sobretudo, lembrar que parar também faz parte da criação. O silêncio é matéria-prima
tanto quanto a palavra.
A procrastinação criativa não é o
fim do caminho. É apenas uma dobra dele. Um desvio que, muitas vezes, nos leva
a lugares mais profundos do que imaginávamos. Quando finalmente voltamos à
página, voltamos diferentes. Voltamos mais inteiros. Voltamos com algo que só o
tempo poderia revelar.
E talvez seja essa a verdade mais
simples e mais difícil de aceitar: a criatividade não se apressa. Ela
amadurece. E, quando chega, chega inteira.
Autora, Elyne Silva

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