O Renascer do Livro Sussurros Ruins

 

Olhar para trás e perceber como a escrita se tornou parte da minha vida é como revisitar um caminho já trilhado, mas agora iluminado por uma nova consciência. A primeira centelha dessa jornada nasceu aqui, em Portugal, nos dias em que eu atendia minhas clientes no Edifício São Caetano, na Avenida da República. Ali, entre confidências e silêncios, comecei a escutar algo mais profundo do que palavras: ecos de histórias não contadas.

Muitas delas não dormiam. O sono lhes escapava como um pássaro inquieto. E havia um fio invisível que as unia — traumas antigos, marcas da infância, vínculos frágeis com os pais. Foi então que imaginei um livro acadêmico, um estudo sobre insônia, um gesto de cuidado. Colecionei fragmentos, fiz anotações, desenhei páginas com o rigor da ciência e a escuta da alma.

Mas as histórias insistiam em me mostrar algo maior. Havia uma dor que atravessava gerações. E, num dia qualquer, percebi: eu também fazia parte desse enredo. Carregava em mim os mesmos sussurros, as mesmas ausências, a mesma infância marcada por uma relação difícil com minha mãe.

Abandonei o livro técnico. Voltei-me para dentro. Comecei a escrever sem saber por onde começar. Apenas deixei que as memórias emergissem — como reflexos num espelho partido. Escrever tornou-se resposta, mesmo sem pergunta.

Chamei o livro de Devaneios. Reuni rascunhos, ideias dispersas, pedaços de mim. Mas desconhecia os caminhos da publicação. Sabia apenas que o escritor independente paga caro por sua coragem. Foi então que encontrei a Editora MEPE, através de um curso com Thaise Patuzzo. Ali, minha autobiografia começou a tomar forma — não como produto, mas como renascimento.

Ao desenrolar dos personagens, percebi um padrão: os filhos carregavam sussurros maternos, palavras que deveriam ser afeto, mas traziam sombra. E assim nasceu Sussurros Ruins. O livro ganhou vida própria. Reencontros aconteceram. Ecos do passado se fizeram ouvir. Com a carne exposta, caminhei pelos recantos onde o silêncio gritava mais alto.

Com coragem, as palavras atravessaram dores antigas. Iluminaram cantos esquecidos. A história deixou de ser escrita — passou a ser sentida. Lágrimas escorreram. Revivi uma infância onde o amor não sabia o caminho de casa.

E então, após 34 anos, vivi pela primeira vez o luto do meu pai. Foi na dor da perda que descobri: há beleza em sobreviver, coragem em narrar o indizível, esperança nas páginas que ousam tocar aquilo que muitos preferem calar.

Sussurros Ruins não é apenas um livro. É um renascer. É a minha voz devolvida ao mundo. É a memória que respira. É a alma que escreve.

Autora, Elyne Silva


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